Ilustração: Ana Cândida Lima
Escondia-se atrás do seu cigarro de palha, atrás de um copo de vinho, na barba mal feita, no cabelo grande. Escondia-se atrás de seus amores, seus vários amores. Vivia a procura de algo que não sabia, mas acreditava precisar. E seu olhar meigo e um pouco triste despertava confiança nos outros, e uma certa simpatia.
Ele queria ser
muitos, mas se via ninguém. Não se sentia pertencente ao lugar donde vinha.
Alhures via seu futuro, todavia não sabia onde estava. Sr. Ninguém vivia
n’algum lugar que não existia, e no mundo de sua fantasia se animava.
A nada ou
ninguém pertencia, embora transparecesse felicidade. Possuía muito amigos. E a
todos tratava bem. E por suposto, eles também bem o tratavam, embora poucos se
lembrem dele. Mas isso não bastava a Sr. Ninguém, que se sentia só e continuava
em sua busca rumo a lugar algum.
E em lugar
nenhum se encontrava. Sendo ninguém se satisfazia, mas mesmo assim outro lugar
precisava. Ele confundia-se consigo. Não foram poucas as vezes que repararam
que Sr. Ninguém passava horas autodialogando, seja em voz alta ou em um
silêncio contemplativo.
Sr. Ninguém
tinha uns hábitos peculiares. Era fanático pela rotina. Frequentava o mesmo
café no mesmo horário e sempre sentava à mesma mesa. Uma mesa que não tinha número
num café que já não existe mais. Punha-se a escrever num caderninho sem cor.
Até hoje não se sabe de ninguém que tenha tido acesso a suas escritas, mas
alguns pensam que ali ele escrevia sobre o nada, descrevendo suas aventuras em
lugar nenhum. E elas deviam ser muitas, visto que Sr. Ninguém ficava entretido por
horas na sua escrita. Às vezes parava de escrever e mirava o vazio. Ficava
assim por minutos e voltava ao seu trabalho.
As moças que
amaram Sr. Ninguém enlouqueceram. Alguns dizem que Sr. Ninguém tinha uma
capacidade de evocar as sensações mais lúgubres dos seres. Há os que discordam,
justificando que as pessoas já eram lúgubres e perturbadas antes de conhecê-lo.
Contudo, é consenso que não há como saber sobre Sr. Ninguém a partir de seus
amores, porque ao citá-lo suas antigas cônjuges ficam fora de si.
Sr. Ninguém
não era nem bonito nem feio. Não era nem gordo nem magro, alto ou baixo. Na verdade não há como defini-lo. Ele era
peculiar e não lembrava ninguém. Levava consigo um sorriso confiável, mas não
engraçado. E um olhar que evocava o nada. Ele parecia não ter sentimentos.
Todavia ele mesmo disse que não há ninguém que não tenha sentimento algum, e os
que mais sentem são os que menos transparecem.
E há tempos
não se ouve mais falar de Ninguém. Sabe-se lá para onde foi, se é que foi.
Alguns acreditam que Sr. Ninguém passou a não existir mais por aqui, vivendo
eternamente em lugar nenhum, escrevendo seus textos sobre o nada.
Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 27 de março de 2014)
(Nova Petrópolis, 27 de março de 2014)
