Pensava ela enquanto ouvia Tim
Berne. E alucinava na escuta.
- Sai pra lá, meu monstro. Leva
tua alma escura daqui!
Ela gritava bem cedo!
Na sua boca, cheia das vespas de
ontem, exalava o estranho aroma da flor desgastada e sem cor. “Sai pra lá”,
pedia incessantemente, mas sem o largar, com a boca no pescoço e a palma da mão
no peito dele. Agarrando-o e repelindo-o num ato só. E só, abandonava o seu
leito, correndo em desespero, temendo seu profundo erro. E temia o enlace e o
desgaste do sentimento recente. Era tanta dúvida que ele se perdia nas curvas
dos pontos de interrogação dela. E eles eram tantos...
Ele via o rosto dela desfigurado
em seu sonho. Ela estava longe, bem longe até, mas sua voz perturbava seu
descanso. E repetidas vezes chamava-o. Acordava-o bem cedo, sem quase tê-lo
deixado dormir! “Sai pra lá, meu monstro!”, gritava ele, dessa vez.
Era cômico até, se não fosse o
trágico motivo das dores. Trágico e banal, quiçá. Ele, irônico, tornava-se
outros, e vestir-se de personagens difusos pode ser algo fantasticamente
perturbador e engraçado. Um paradoxo de uma estúpida loucura inventada. “Sai
pra lá, meu monstro!”, pensava ele constantemente.
E os dois repetiram os gestos.
Remontaram seu ato um par de vezes. Mesclaram o furor do reencontro num momento
confuso e constrangedor. Ato aliado por digressões infantas. Delírios
catastróficos construtores de rugas e cabelos brancos.
Mas no gozo dos discursos
compreendiam-se e confundiam-se num mesmo momento. Um alimentava a insanidade
metafórica do outro. “Saiam pra lá, seus monstros!” Gritavam os que assistiam
perplexos à repetida cena!
E bem separados, de súbito,
ouviam David Torn desta vez. E naqueles sons fumavam cinzas do passado. E riam
da desgraça de outrora, num ato satírico de lucidez fugaz, comendo o arroz
cozido jogado neles nas núpcias que não aconteceram.
E fugindo um do outro eles
reencontram-se sempre, com uma cara de notícia velha de jornal. É cômico ver. E
assistindo perplexos à ilusória cena, todos gritam: “Saiam pra lá, seus
monstros!”
Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 26 de março de
2014)
