domingo, 1 de junho de 2014

Sai pra lá, meu monstro!


Ilustração Ana Cândida Lima


- Sai pra lá, meu monstro!
Pensava ela enquanto ouvia Tim Berne. E alucinava na escuta.
- Sai pra lá, meu monstro. Leva tua alma escura daqui!
Ela gritava bem cedo!
Na sua boca, cheia das vespas de ontem, exalava o estranho aroma da flor desgastada e sem cor. “Sai pra lá”, pedia incessantemente, mas sem o largar, com a boca no pescoço e a palma da mão no peito dele. Agarrando-o e repelindo-o num ato só. E só, abandonava o seu leito, correndo em desespero, temendo seu profundo erro. E temia o enlace e o desgaste do sentimento recente. Era tanta dúvida que ele se perdia nas curvas dos pontos de interrogação dela. E eles eram tantos...
Ele via o rosto dela desfigurado em seu sonho. Ela estava longe, bem longe até, mas sua voz perturbava seu descanso. E repetidas vezes chamava-o. Acordava-o bem cedo, sem quase tê-lo deixado dormir! “Sai pra lá, meu monstro!”, gritava ele, dessa vez.
Era cômico até, se não fosse o trágico motivo das dores. Trágico e banal, quiçá. Ele, irônico, tornava-se outros, e vestir-se de personagens difusos pode ser algo fantasticamente perturbador e engraçado. Um paradoxo de uma estúpida loucura inventada. “Sai pra lá, meu monstro!”, pensava ele constantemente.
E os dois repetiram os gestos. Remontaram seu ato um par de vezes. Mesclaram o furor do reencontro num momento confuso e constrangedor. Ato aliado por digressões infantas. Delírios catastróficos construtores de rugas e cabelos brancos.
Mas no gozo dos discursos compreendiam-se e confundiam-se num mesmo momento. Um alimentava a insanidade metafórica do outro. “Saiam pra lá, seus monstros!” Gritavam os que assistiam perplexos à repetida cena!
E bem separados, de súbito, ouviam David Torn desta vez. E naqueles sons fumavam cinzas do passado. E riam da desgraça de outrora, num ato satírico de lucidez fugaz, comendo o arroz cozido jogado neles nas núpcias que não aconteceram.
E fugindo um do outro eles reencontram-se sempre, com uma cara de notícia velha de jornal. É cômico ver. E assistindo perplexos à ilusória cena, todos gritam: “Saiam pra lá, seus monstros!”

Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 26 de março de 2014)