sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Pergunta


Ilustração: Ana Cândida Lima


Ele me perguntou subitamente se já tinha amado. Respondi que sim. Disse meio sem graça que tinha sido vítima das cócegas da paixão. Que já havia transitado no labirinto confuso da emoção, habitando desavisado os caminhos sinuosos de um furor estonteante num enlace fortuito.
Com uma expressão de surpresa ele insistiu. Creio que minha resposta tenha despertado interesse. Perguntou-me, então, se já havia amado loucamente. E na loucura nostálgica da lembrança, num impulso de fala anômala, disse-lhe que havia vivido enredo similar àqueles descritos em romances russos.
Disse-lhe que outrora me alimentei dos devaneios do amor, dos sonhos perenes, do âmago do sorriso constante. A explosão polar no estômago havia se instalado noutro tempo. Num sôfrego pulso, na negação da trivialidade, amei no meu alvorecer e desvaneci no crepúsculo do meu sentimento. Havia experimentado a vontade de pelo outro buscar ser melhor. O despertar de um sorriso interno, com a constante e ameaçadora certeza da finitude do verso.
Em elisões de amores guardei os perfumes, os sorrisos, os toques. As melodias das falas sempre bateram em minha porta, tanto nas noites quanto nas manhãs. O suspiro longínquo dos momentos eternizados que ecoam no pranto das janelas de minha alma.
Observou, então, que meu sorriso interno emanou desesperada gargalhada silenciosa, e no prelúdio de sua pergunta compus sinfonia abstrata, ressoando as notas de minha lembrança, os sons de minha memória enlutada e reformada, renascida e vívida.
Passado um par de dias pôs-se ele a pensar, com um sorriso sufocado, lembrando de minha lembrança. Viveu num instante o lânguido assombro dos ecos de minhas histórias no seu pensar. Mas logo este instante morreu, e percebeu que minha história se tornou dele e nele se modificou. Hoje a tem como um conto fantástico. Um enredo de um sonho não sonhado. Um devaneio não vivido mas pensado.


Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 18 de maio de 2014)