Ilustração: Ana Cândida Lima
Ele me perguntou subitamente se
já tinha amado. Respondi que sim. Disse meio sem graça que tinha sido vítima
das cócegas da paixão. Que já havia transitado no labirinto confuso da emoção,
habitando desavisado os caminhos sinuosos de um furor estonteante num enlace
fortuito.
Com uma expressão de surpresa ele
insistiu. Creio que minha resposta tenha despertado interesse. Perguntou-me,
então, se já havia amado loucamente. E na loucura nostálgica da lembrança, num
impulso de fala anômala, disse-lhe que havia vivido enredo similar àqueles
descritos em romances russos.
Disse-lhe que outrora me alimentei dos devaneios do amor, dos sonhos perenes, do âmago do sorriso
constante. A explosão polar no estômago havia se instalado noutro tempo. Num
sôfrego pulso, na negação da trivialidade, amei no meu alvorecer e desvaneci no
crepúsculo do meu sentimento. Havia experimentado a vontade de pelo outro
buscar ser melhor. O despertar de um sorriso interno, com a constante e
ameaçadora certeza da finitude do verso.
Em elisões de amores guardei os
perfumes, os sorrisos, os toques. As melodias das falas sempre bateram em minha
porta, tanto nas noites quanto nas manhãs. O suspiro longínquo dos momentos
eternizados que ecoam no pranto das janelas de minha alma.
Observou, então, que meu sorriso
interno emanou desesperada gargalhada silenciosa, e no prelúdio de sua pergunta
compus sinfonia abstrata, ressoando as notas de minha lembrança, os sons de
minha memória enlutada e reformada, renascida e vívida.
Passado um par de dias pôs-se ele
a pensar, com um sorriso sufocado, lembrando de minha lembrança. Viveu num
instante o lânguido assombro dos ecos de minhas histórias no seu pensar. Mas
logo este instante morreu, e percebeu que minha história se tornou dele e nele se modificou. Hoje a tem como um conto fantástico. Um enredo de um sonho não
sonhado. Um devaneio não vivido mas pensado.
Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 18 de maio de 2014)
(Nova Petrópolis, 18 de maio de 2014)
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