quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O estranho caso dos que se amavam e se odiavam paralelamente


Ilustração: Ana Cândida Lima


Se conheceram bem cedo. Ele lembrava do primeiro encontro. Ela lembrava mas não tanto quanto ele. Mas muito depois do encontro juntaram-se. Anos depois, quando muito havia acontecido para os dois.
Meio sem querer ficaram juntos. Se amaram absurdamente por alguns anos. Neste ínterim se odiaram com força, mas o amor retornava tal qual um bumerangue. Brigavam intensamente. Entre arranhões e mordidas se acariciavam, em tempestuosos gestos de amor e ódio. Sempre diziam que tinham ouvido em algum lugar que o ódio estava intensamente relacionado ao sexo. E de fato, sempre que brigavam resolviam o impasse num ato insano de furor lascivo.
A inconstância era o norte deles. O normal para eles. Visto que não tinham outra referência. Entendiam que a tempestuosa união construída por eles era o natural. Eles não tinham outro exemplo, e os relacionamentos que os cercavam eram um pouco inconstantes também. E neste caminho um "insanificava" o outro. Ela alimentou a loucura dele e vice-versa. Eles diziam que a loucura atraía a loucura. E isso se comprovava no caso deles. Um atraia o outro, e seu círculo de amigos, bem pequeno por sinal, era repleto por pessoas perturbadas.
Um dia, porém, a situação ficou insustentável. O amor cresceu tanto que explodiu, porque acompanhado do amor estava o ódio. Separaram-se então, num ato desesperado e automutilante. Mas esta separação não foi abrupta. Ela se deu ao longo de anos. Anos insanos, onde um constantemente invadiu a vida do outro, a cama do outro, a mente do outro.
Eles imploravam um para o outro que se distanciassem. Mas este pedido era em vão, visto que quando um longe se encaminhava o outro o enlaçava como se enlaça um bovino em fuga. E neste vai e vem, como o bumerangue do início do relacionamento, sobreviviam num enredo macambúzio de sofrimentos e sorrisos desesperados.
Até que um deles pôs fim a este enredo insano. Não se sabe qual dos dois teve a iniciativa. Sabe-se apenas que o ódio entre eles se intensificou catastroficamente em um primeiro momento. E o amor foi escondido, como um segredo de estado. Nenhum dos dois admitia amar o outro. Pelo contrário, ambos diziam que queriam ver seu antigo cônjuge morto. Que almejavam a desgraça de seu antigo amor. E estes pronunciamentos duraram meses, ou anos.
Por fim, o derradeiro ato necessário. Ambos admitiram amor mútuo e concluíram que sua união era o decreto para a morte deste sentimento. Entenderam que para manter aceso um sentimento fraterno entre os dois era necessário que separados ficassem. Ironicamente descobriram  que há amores que não conseguem ficar juntos. E eles participavam deste tipo de enlace, quando o amor extrapolou em intensidade, levando consigo a racionalidade do ser, construindo um delírio nefasto de mentes carentes.
E hoje se encontram de vez em quando, andando pela rua ou caminhando no parque. E ambos ao se verem enxergam uma película do passado. Participam de um retorno no tempo para o enredo de um sonho recorrente e ilusório.


Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 29 de março de 2014)