Ilustração: Ana Cândida Lima
Se conheceram
bem cedo. Ele lembrava do primeiro encontro. Ela lembrava mas não tanto quanto
ele. Mas muito depois do encontro juntaram-se. Anos depois, quando muito havia
acontecido para os dois.
Meio sem
querer ficaram juntos. Se amaram absurdamente por alguns anos. Neste ínterim se
odiaram com força, mas o amor retornava tal qual um bumerangue. Brigavam
intensamente. Entre arranhões e mordidas se acariciavam, em tempestuosos gestos
de amor e ódio. Sempre diziam que tinham ouvido em algum lugar que o ódio
estava intensamente relacionado ao sexo. E de fato, sempre que brigavam
resolviam o impasse num ato insano de furor lascivo.
A inconstância
era o norte deles. O normal para eles. Visto que não tinham outra referência. Entendiam
que a tempestuosa união construída por eles era o natural. Eles não tinham
outro exemplo, e os relacionamentos que os cercavam eram um pouco inconstantes
também. E neste caminho um "insanificava" o outro. Ela alimentou a loucura dele e
vice-versa. Eles diziam que a loucura atraía a loucura. E isso se comprovava no
caso deles. Um atraia o outro, e seu círculo de amigos, bem pequeno por sinal,
era repleto por pessoas perturbadas.
Um dia, porém,
a situação ficou insustentável. O amor cresceu tanto que explodiu, porque
acompanhado do amor estava o ódio. Separaram-se então, num ato desesperado e
automutilante. Mas esta separação não foi abrupta. Ela se deu ao longo de anos.
Anos insanos, onde um constantemente invadiu a vida do outro, a cama do outro,
a mente do outro.
Eles
imploravam um para o outro que se distanciassem. Mas este pedido era em vão, visto
que quando um longe se encaminhava o outro o enlaçava como se enlaça um bovino
em fuga. E neste vai e vem, como o bumerangue do início do relacionamento, sobreviviam
num enredo macambúzio de sofrimentos e sorrisos desesperados.
Até que um
deles pôs fim a este enredo insano. Não se sabe qual dos dois teve a
iniciativa. Sabe-se apenas que o ódio entre eles se intensificou
catastroficamente em um primeiro momento. E o amor foi escondido, como um
segredo de estado. Nenhum dos dois admitia amar o outro. Pelo contrário, ambos
diziam que queriam ver seu antigo cônjuge morto. Que almejavam a desgraça de
seu antigo amor. E estes pronunciamentos duraram meses, ou anos.
Por fim, o
derradeiro ato necessário. Ambos admitiram amor mútuo e concluíram que sua
união era o decreto para a morte deste sentimento. Entenderam que para manter
aceso um sentimento fraterno entre os dois era necessário que separados
ficassem. Ironicamente descobriram que
há amores que não conseguem ficar juntos. E eles participavam deste tipo de
enlace, quando o amor extrapolou em intensidade, levando consigo a racionalidade
do ser, construindo um delírio nefasto de mentes carentes.
E hoje se encontram
de vez em quando, andando pela rua ou caminhando no parque. E ambos ao se verem
enxergam uma película do passado. Participam de um retorno no tempo para o
enredo de um sonho recorrente e ilusório.
Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 29 de março de 2014)
(Nova Petrópolis, 29 de março de 2014)

Nenhum comentário:
Postar um comentário