quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O telefone


Ilustração: Ana Cândida Lima



E o telefone toca. Ele repete o seu timbre de tempos em tempos, chorando em relativo ato na casa vazia. E ao pegá-lo, no silêncio quase intocado da noite, ouço o nada do outro lado. Um silêncio constrangedor, perturbador até. Não sei o que se passa.
Esse momento se repete. Várias vezes participo desta cena. Até parece um “déjà vú”. Será? Será que ele realmente toca? Eu penso sempre que levanto do gancho o telefone...
E a vontade quase inexiste de pegá-lo, visto que o roteiro repetir-se-á.
- Alô! Alô?
E do lado de lá o som de um respiro. Um suspiro que parece querer falar, mas se cala. E na sequência o som da ligação findada. A ligação não realizada, sem discurso, sem diálogo. Apenas os suspiros, os “alôs” e o retorno do silêncio da noite, agora com a mesma interrogação de outrora.

A cena se repete. Por vários dias participo deste ato. Ato vazio, irritante e assustador, em parte. E depois do ato, cada gemido da casa parece invocar alguém. O silêncio da noite incorpora estalos. Ganha novos sons. No ambiente ou em minha mente. E acredito ouvir o que não está aqui. O que não se vê, ou o que aqui já esteve...
É sempre no mesmo horário. Entre 20 e 21 horas. Ontem ouvi tocar, mas não atendi. Noutro dia também, mas não lembro quando. Não é sempre que venho para cá. Mas recordo que das vezes que venho ocupo-me da mesma cena. Correr distraído para atendê-lo, não me dando conta do horário e nem de que poucos este número conhecem.
O que será este toque? Quem será? Quando será? Neste emaranhado de perguntas me coloco no inquérito de minha vida. Será que este toque realmente existe? E esta linha telefônica, ainda está viva? Pergunto-me se mais alguém ouve este chamado. Não recordo de ouvir estes toques com mais alguém do lado...
A solidão confunde...
E nestas dúvidas momentâneas coloco-me nas dúvidas inquiridas por mim. Manterei provavelmente a mesma ação, de levantar a cada toque, na esperança que a voz do outro lado, se é que existe, me informe e justifique seu incessante ato.
Chamado ou aviso...


Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 27 de março de 2014)

Nenhum comentário:

Postar um comentário