Ilustração: Ana Cândida Lima
E o telefone toca. Ele repete o
seu timbre de tempos em tempos, chorando em relativo ato na casa vazia. E ao
pegá-lo, no silêncio quase intocado da noite, ouço o nada do outro lado. Um
silêncio constrangedor, perturbador até. Não sei o que se passa.
Esse momento se repete. Várias
vezes participo desta cena. Até parece um “déjà vú”. Será? Será que ele
realmente toca? Eu penso sempre que levanto do gancho o telefone...
E a vontade quase inexiste de
pegá-lo, visto que o roteiro repetir-se-á.
- Alô! Alô?
E do lado de lá o som de um
respiro. Um suspiro que parece querer falar, mas se cala. E na sequência o som
da ligação findada. A ligação não realizada, sem discurso, sem diálogo. Apenas
os suspiros, os “alôs” e o retorno do silêncio da noite, agora com a mesma
interrogação de outrora.
A cena se repete. Por vários dias
participo deste ato. Ato vazio, irritante e assustador, em parte. E depois do
ato, cada gemido da casa parece invocar alguém. O silêncio da noite incorpora
estalos. Ganha novos sons. No ambiente ou em minha mente. E acredito ouvir o que
não está aqui. O que não se vê, ou o que aqui já esteve...
É sempre no mesmo horário. Entre
20 e 21 horas. Ontem ouvi tocar, mas não atendi. Noutro dia também, mas não
lembro quando. Não é sempre que venho para cá. Mas recordo que das vezes que
venho ocupo-me da mesma cena. Correr distraído para atendê-lo, não me dando
conta do horário e nem de que poucos este número conhecem.
O que será este toque? Quem será?
Quando será? Neste emaranhado de perguntas me coloco no inquérito de minha
vida. Será que este toque realmente existe? E esta linha telefônica, ainda está
viva? Pergunto-me se mais alguém ouve este chamado. Não recordo de ouvir estes
toques com mais alguém do lado...
A solidão confunde...
E nestas dúvidas momentâneas
coloco-me nas dúvidas inquiridas por mim. Manterei provavelmente a mesma ação,
de levantar a cada toque, na esperança que a voz do outro lado, se é que
existe, me informe e justifique seu incessante ato.
Chamado ou aviso...
Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 27 de março de 2014)
(Nova Petrópolis, 27 de março de 2014)

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