quinta-feira, 23 de abril de 2015

Presente momento


Ilustração: Ana Cândida Lima


Perdeu-se o encanto. No encontro do desencontro ela percebeu que nele não mais existia. E na sombra dele deparou-se sombria recordação. Na nova ação do seu antigo amor viu-se poesia desvanecida. E ela sofreu o abandono da paixão. O apagar do sonhado plano. E no seu arrependimento, no seu recente pranto, esmaeceu seu brilho esperançoso.
Apagou-se o sol vivente em seu olhar. Meio distraída desenhou uma ruga no canto do seu olho, que lá ainda permanece. Sofrendo pela lembrança do não ocorrido chorou a perda do futuro daquele passado, que se tornou defunto cremado, emanando as cinzas que se dissiparam à frente de seus aguados olhos.
Mas enfim, de toda história se faz lição, pensou ela em ato conformista de consolação, em uma atitude para recuperar sua antiga alegria e renascer seu sorriso espontâneo e peculiarmente sonoro. E no folhear dos bilhetes de outrora sorriu a lembrança do passado, o amor daquele tempo, que não fugia de suas mãos.
E o passado ela tomou para si. Soube ela que o passado lhe pertencia, ele era dela, somente dela, e isso ninguém poderia tirar. E com esta posse, este souvenir ilusório, ela seguiu durante muito tempo. As recordações alimentaram aquela angústia e foram sua ração de vida por um longo período.
Um tempo depois, findado o sentimento de posse, passada a vontade de ter o outro para si, ela renasceu, acordando de um longo sonho lúgubre. E quando se fez lúcida viu que não havia passado tanto tempo, e que o seu amor possessivo era construção sua. Ela se deu conta, meio embriagada, que tinha realizado no outro uma construção de si, e projetou nele seus anseios, angústias e desejos. Se deu conta que culpava ele pela ausência proporcionada e construída por ela.
E neste instante, ao clangor dos pensamentos embaraçados, ela tornou-se presente, presenteando a si com uma boa dose de presente momento.


Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 7 de abril de 2014)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O estranho caso dos que se amavam e se odiavam paralelamente


Ilustração: Ana Cândida Lima


Se conheceram bem cedo. Ele lembrava do primeiro encontro. Ela lembrava mas não tanto quanto ele. Mas muito depois do encontro juntaram-se. Anos depois, quando muito havia acontecido para os dois.
Meio sem querer ficaram juntos. Se amaram absurdamente por alguns anos. Neste ínterim se odiaram com força, mas o amor retornava tal qual um bumerangue. Brigavam intensamente. Entre arranhões e mordidas se acariciavam, em tempestuosos gestos de amor e ódio. Sempre diziam que tinham ouvido em algum lugar que o ódio estava intensamente relacionado ao sexo. E de fato, sempre que brigavam resolviam o impasse num ato insano de furor lascivo.
A inconstância era o norte deles. O normal para eles. Visto que não tinham outra referência. Entendiam que a tempestuosa união construída por eles era o natural. Eles não tinham outro exemplo, e os relacionamentos que os cercavam eram um pouco inconstantes também. E neste caminho um "insanificava" o outro. Ela alimentou a loucura dele e vice-versa. Eles diziam que a loucura atraía a loucura. E isso se comprovava no caso deles. Um atraia o outro, e seu círculo de amigos, bem pequeno por sinal, era repleto por pessoas perturbadas.
Um dia, porém, a situação ficou insustentável. O amor cresceu tanto que explodiu, porque acompanhado do amor estava o ódio. Separaram-se então, num ato desesperado e automutilante. Mas esta separação não foi abrupta. Ela se deu ao longo de anos. Anos insanos, onde um constantemente invadiu a vida do outro, a cama do outro, a mente do outro.
Eles imploravam um para o outro que se distanciassem. Mas este pedido era em vão, visto que quando um longe se encaminhava o outro o enlaçava como se enlaça um bovino em fuga. E neste vai e vem, como o bumerangue do início do relacionamento, sobreviviam num enredo macambúzio de sofrimentos e sorrisos desesperados.
Até que um deles pôs fim a este enredo insano. Não se sabe qual dos dois teve a iniciativa. Sabe-se apenas que o ódio entre eles se intensificou catastroficamente em um primeiro momento. E o amor foi escondido, como um segredo de estado. Nenhum dos dois admitia amar o outro. Pelo contrário, ambos diziam que queriam ver seu antigo cônjuge morto. Que almejavam a desgraça de seu antigo amor. E estes pronunciamentos duraram meses, ou anos.
Por fim, o derradeiro ato necessário. Ambos admitiram amor mútuo e concluíram que sua união era o decreto para a morte deste sentimento. Entenderam que para manter aceso um sentimento fraterno entre os dois era necessário que separados ficassem. Ironicamente descobriram  que há amores que não conseguem ficar juntos. E eles participavam deste tipo de enlace, quando o amor extrapolou em intensidade, levando consigo a racionalidade do ser, construindo um delírio nefasto de mentes carentes.
E hoje se encontram de vez em quando, andando pela rua ou caminhando no parque. E ambos ao se verem enxergam uma película do passado. Participam de um retorno no tempo para o enredo de um sonho recorrente e ilusório.


Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 29 de março de 2014)