Ilustração: Ana Cândida Lima
Perdeu-se o
encanto. No encontro do desencontro ela percebeu que nele não mais existia. E
na sombra dele deparou-se sombria recordação. Na nova ação do seu antigo amor
viu-se poesia desvanecida. E ela sofreu o abandono da paixão. O apagar do
sonhado plano. E no seu arrependimento, no seu recente pranto, esmaeceu seu
brilho esperançoso.
Apagou-se o
sol vivente em seu olhar. Meio distraída desenhou uma ruga no canto do seu olho,
que lá ainda permanece. Sofrendo pela lembrança do não ocorrido chorou a perda
do futuro daquele passado, que se tornou defunto cremado, emanando as cinzas
que se dissiparam à frente de seus aguados olhos.
Mas enfim, de
toda história se faz lição, pensou ela em ato conformista de consolação, em uma
atitude para recuperar sua antiga alegria e renascer seu sorriso espontâneo e
peculiarmente sonoro. E no folhear dos bilhetes de outrora sorriu a lembrança
do passado, o amor daquele tempo, que não fugia de suas mãos.
E o passado
ela tomou para si. Soube ela que o passado lhe pertencia, ele era dela, somente
dela, e isso ninguém poderia tirar. E com esta posse, este souvenir ilusório,
ela seguiu durante muito tempo. As recordações alimentaram aquela angústia e
foram sua ração de vida por um longo período.
Um tempo depois,
findado o sentimento de posse, passada a vontade de ter o outro para si, ela
renasceu, acordando de um longo sonho lúgubre. E quando se fez lúcida viu que
não havia passado tanto tempo, e que o seu amor possessivo era construção sua.
Ela se deu conta, meio embriagada, que tinha realizado no outro uma construção
de si, e projetou nele seus anseios, angústias e desejos. Se deu conta que
culpava ele pela ausência proporcionada e construída por ela.
E neste instante,
ao clangor dos pensamentos embaraçados, ela tornou-se presente, presenteando a
si com uma boa dose de presente momento.
Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 7 de abril de 2014)
(Porto Alegre, 7 de abril de 2014)

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