Ilustração: Ana Cândida Lima
“Você está louco!”, dizia o criado-mudo ao Sujeito no meio da noite. E
quase acordava o travesseiro com sua voz, pensava o Sujeito. O móvel era
simples, de madeira cerejeira, se não me engano. Nele continha um abajur de luz
quente, um dicionário de francês, preservativos, lenços de papel e chocolates
vencidos. Era um criado-mudo modesto, porém audacioso, acreditava o Sujeito.
Por muitas vezes temia o Sujeito ir à cama, visto que certamente seria
incomodado pelo criado-mudo que perturbava seu sono constantemente, repetindo com
insistência: “Você está louco. Está louquinho, meu rapaz. Não é?”. E na sua voz,
com um timbre muito parecido com o seu, o Sujeito percebia uma maliciosa e
aterrorizante ironia, como se o móvel soubesse do que estava falando, como se o
criado-mudo estivesse confirmando um desconfortável e terrível diagnóstico.
Aquela interrogação no final da frase é o que mais incomodava ele.
Toda a noite, quando chegava próximo da hora de deitar, o Sujeito
apavorava-se. Bebia muito à noite, pois não conseguia alcançar o sono, talvez
por receio daquela voz. Chegou a dormir em outro cômodo, todavia a voz do
criado-mudo, como um canto feérico maligno, atravessava as paredes da casa e
encontrava o Sujeito onde ele estivesse. Mesmo com ajuda de soníferos ele
despertava com a voz do criado-mudo que funcionava como um despertador maldito.
Penetrante, parecia acordar a alma do Sujeito que angustiado despertava em
desespero.
Ele seguiu neste ciclo de fuga, até que um dia resolveu conversar com o
móvel. Repleto de medo e angústias o Sujeito respondeu:
- Não estou.
Você está! Descontente com sua solidão e loucura tenta incutir a loucura em
outro.
O criado-mudo nada respondeu. E o silêncio perdurou por alguns dias. O
Sujeito estranhou este silêncio. Na verdade ficou ligeiramente confuso e
surpreendido pela repentina ausência.
Alguns dias depois, talvez semanas, mas não muitas, foi despertado
novamente. Desta vez, quando acordou, a luz do abajur estava ligada e ele ouvia
uma nova voz. Acordou sentado na cama, não entendia como, e quem lhe falava
desta vez era o travesseiro sobressalente. A voz do travesseiro era diferente
da do criado-mudo. A nova voz era uma mistura da voz do Sujeito com a de seu
pai, falando pausadamente. Ela parecia vir de um lugar distante. Todavia o
Sujeito sabia que a voz pertencia ao Travesseiro.
Ele estranhou muito este novo interlocutor. Incomodou-se com a voz, mas
ao mesmo tempo, num primeiro e rápido momento, sentiu-se confortável com ela
pois parecia transmitir um certo conforto a ele. Esta nova voz emitia uma nova
frase: “Você está aqui, e quem mais? Quem somos? Lembra?”.
Eram mais interrogações que as do criado-mudo. E esse episódio repetia-se
por diversas noites. Vários dias se passaram em que a voz do Travesseiro
acordava o Sujeito, que despertava sempre sentado na sua cama e com a luz do
abajur acesa. Demorou alguns dias, todavia, para o Sujeito atentar para o
conteúdo das frases. Ele estava querendo entender o porquê acordava sentando, e
estranhava demais este timbre de voz. Acostumado com isso passou a prestar
atenção no que o Travesseiro lhe falava. Não entendia aquilo, e chegou a sentir
falta do criado-mudo. Aquele, pensava ele, pelo menos não lhe colocava tantas
perguntas.
Uma noite, enfim, assim como havia procedido com o criado-mudo, resolveu
tentar um diálogo com o travesseiro. Disse então:
- Não respondo a
objetos. Você não existe! Deixe-me dormir! Não perturbe mais meu sono com suas
estúpidas perguntas! Suma!
No dia seguinte a voz sumiu. Como ocorrido anteriormente com o
criado-mudo, depois de responder ao Travesseiro o Sujeito ficou dias sem ouvir
voz alguma.
Após um intervalo de tempo, o silêncio noturno foi novamente quebrado.
Certa noite o Sujeito acordou de pé, ao lado de sua cama, ouvindo as vozes do Criado-mudo
e do Travesseiro. Além destas vozes já conhecidas pelo Sujeito outra voz
aparecia, soando simultaneamente com as demais. Esta nova voz vinha da
escrivaninha. O conteúdo de sua fala era difícil de compreender. O Criado-mudo
e o Travesseiro emitiam as mesmas frases de antes, contudo a nova voz, vinda da
escrivaninha, dizia algo diferente. Era uma voz feminina e lembrava a de sua mãe.
Ligeiramente mais rápida que as demais e um pouco mais difícil de compreender.
Seduzido pelas outras vozes, o Sujeito não conseguia entender o que dizia
a nova voz. Percebia que era uma voz aflita e que tentava informar algo em
desespero. E como havia ocorrido outrora, os objetos do quarto seguiam
despertando o Sujeito noite após noite. Doravante não queria mais dialogar com
objetos. Mentalizava outras coisas quando despertava, buscando fugir ou ignorar
as vozes que ouvia. E antes de tentar compreender a frase que esta nova voz emitia
resolveu pronunciar-se perante todos os objetos falantes de seu quarto, e certa
noite, num rompante de raiva, falou:
- Calem-se! Deixem-me
em paz! Não quero mais suas loucas falas!
E se fez silêncio por alguns dias...
Passado algumas semanas o Sujeito despertou novamente no meio da noite.
Ele estava no seu quarto, só que seu quarto era diferente. Sentado em uma
poltrona olhou para sua cama e viu ele mesmo deitado nela. As luzes piscavam
freneticamente. Parecia noite e dia ao mesmo tempo. As vozes do Criado-mudo, do
Travesseiro e da Escrivaninha soavam simultaneamente e em volume ensurdecedor. Junto
delas somavam-se outras vozes vindas de todos os cantos do cômodo. Todas eram a
sua voz, só que de modo diferente, com velocidades de fala diferentes e quase
indecifráveis. Agora o Sujeito estava acordado, e não conseguia mais dormir. Também
não conseguia mais sair do seu quarto ou de seu acento. Estava petrificado e
não tinha mais noção de tempo. Não conseguia se locomover, permanecendo sentado
em sua poltrona observando a si mesmo deitado na cama com os olhos arregalados,
catatônico. Embarcou numa confusão claustrofóbica, onde não sabia o que era, o
que estava acontecendo e nem em que tempo estava.
Tendo todo o tempo para si, e tempo algum, ao mesmo tempo, resolveu
prestar atenção em todas as inúmeras vozes que ouvia. Percebeu que havia três
vozes principais, as vozes dos objetos. As demais vozes eram coadjuvantes,
apenas ecoavam os pensamentos do Sujeito. Contudo, percebeu
que não havia decifrado ainda a frase emitida pela Escrivaninha. Resolveu,
então, atentar a esta voz. Quando percebeu o conteúdo da frase emitida por esta
voz, sentiu um calafrio em sua espinha. Um gelo percorreu seu corpo ao compreender
a fala. E compreendeu tudo, afinal. A voz, vinda da Escrivaninha, dizia:
- Não dê vazão a
isto! Móveis não falam! Volte à lucidez ou entrarás num caminho sem volta! Não
ignore, resolva! Ainda há tempo!
Após compreender a fala da Escrivaninha, olhou arrependido e apavorado
para si deitado na cama. Num instante, a imagem dele próprio já não estava mais
deitada na cama, mas sim, como um rápido flash, colocava-se imediatamente ao
seu lado, sentada em um imaginário banco mirando o Sujeito e expressando um
desesperado e insano sorriso. Com os olhos vidrados olhando para o Sujeito
dizia em tom de sarcasmo e sem abrir a boca:
- Eis nosso
destino, caro Eu. Aqui estamos Nós, não é? Quem somos? Lembra?
Aquela voz entrava pelas orelhas do Sujeito e ecoava às suas costas como um
sussurro. Um sussurro interminável, um murmúrio que não findava soando em sua
mente.
Por fim, as vozes se corporificaram, replicando o Sujeito em dezenas de
personagens a ocupar o pequeno quarto. O Sujeito não podia mais sair de seu
acento, e não via mais sentido em sair de lá, porque não tinha mais a noção de
onde estava. Tornava-se suas réplicas e não sabia mais qual delas era. E todas
elas expressavam aquele irônico e perturbador sorriso, dizendo infinitas vezes
e em cânone: “Você está louco. Está louquinho, meu rapaz. Não é?”.
Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 17 de junho de 2014)